terça-feira, 27 de julho de 2010

LIVRO QUE FAZ CHORAR

Hoje mais uma vez os textos de Rubem Alves me tocaram a alma. 
Todos nós um dia tivemos curiosidade por algo e na maior parte dos casos essa curiosidade foi podada em nossa infância, tornando-nos conformistas e executores de ordens. É muito provável que você ainda saiba de cor a tabuada que lhe foi ensinada (treinada). 
Atualmente nossas crianças não são mais forçadas a decorar conteúdos, no entanto instituiu-se um vazio, nada foi feito pra garantir uma melhor maneira de ensinar e aprender. Se estes professores não são capazes de ensinar e reaprender o mais básico de nossas profissões, o que dirá se tornarem capazes de ensinar a compaixão! Só damos o que temos!
"Como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha." (Paulo Freire)
Pois é meu estimado Rubem Alves, o que estão fazendo com nossas crianças! Lhes tiraram o direito de sonhar, o direito de aprender, o direito de viver!

Segue abaixo o texto de inspiração...


Um texto não interpretado permanece vivo para sempre

Uma livreira me contou.
Um pai foi à sua livraria e comprou o livro O patinho que não aprendeu a voar, para seu filho. No dia seguinte, voltou muito bravo.
“Meu filho chorou ao final do livro. Ainda chora quando se lembra do patinho que não aprendeu a voar.
Isso é livro que se dê a uma criança?”

Eu compreendo.
Ele quer que seu filho só tenha alegrias.
Ele quer que os livros que seu filho lê sejam engraçados e façam rir.
As crianças não deveriam ler livros que fazem chorar.

Mas tristeza não é coisa ruim.
A poesia brota da tristeza.
Alberto Caeiro escreveu: “Mas eu fico triste como um pôr de sol/Para a nossa imaginação/Quando esfria no fundo da planície/E se sente a noite entrada/Como uma borboleta pela janela/Mas minha tristeza é sossego/Porque é natural e justa/E é o que deve estar na alma…”
Escrevi muitas estórias alegres e que fazem rir.
Mas as que mais amo são aquelas que fazem chorar.

Por que é que o menininho chorou ao ler a estória do patinho que não aprendeu a voar?
Porque sentiu aquilo que minha neta sentiu.
Ela falou, em meio às lágrimas:
“Vovô, eu não consigo ver uma pessoa sofrendo sem sofrer.
Quando vejo uma pessoa sofrendo o meu coração fica junto ao coração dela…”
Ela e o menininho sentiram compaixão.
Seus corações ficaram junto ao coração de alguém ou de algum bichinho que estava sofrendo.
Sofreram um sofrimento que não era seu.
Como ensinar a compaixão?
De que vale conhecimento sem compaixão?
Somente o conhecimento com compaixão cria a bondade.
 E uma sociedade em que não existe a bondade não é digna de que vivamos nela.
Como a nossa, em que a bondade foi espremida nos cantos e as ruas se encheram de medo.

Gandhi relata que a experiência que mudou o seu coração foi a leitura de um livro. Ele era ainda adolescente.
O livro o comoveu tanto que ele queria ser como o herói, nobre e generoso.
Esse sentimento o acompanhou pelo resto da vida.
Seu coração ficou junto ao coração do herói. E não importava que o herói nunca tivesse existido, que fosse apenas uma ficção literária.
Pois é isso que a literatura faz: se desprega da vida real para dar-lhe um sentido.

Livros engraçados são bons. O riso tem a função de mostrar que o rei está nu.

Mas não conheço nenhum caso de uma pessoa que tenha sido transformada por um livro engraçado.
O riso provoca crítica, mas não provoca compaixão.
Pensei então que essa poderia ser uma das maneiras de ensinar compaixão: lendo para o aluno ouvir.
Mas para que as estórias façam os seus milagres é preciso que o ouvinte seja possuído pelas palavras e levado ao sabor da voz de quem lê a estória.

Fiquei então pensando que seria melhor que gastássemos menos tempo com gramática e análise sintática, e mais tempo com a leitura.
É na leitura que se aprende a língua. Leitura sem testes de compreensão, sem interpretações, o que é que o autor queria dizer etc.
Pura emoção.
Um texto não interpretado permanece vivo para sempre, porque permanece como um enigma que nos comove todas as vezes que o lemos.
Mas um texto interpretado é um texto esgotado do seu mistério, esquartejado sobre a mesa de anatomia da linguagem.

Gostaria de conversar com o pai do menino que chorou ao ler O patinho que não aprendeu a voar.
O menino entendeu.
Sentiu compaixão.
Mas o pai não entendeu.
Não chorou.
Ou, quem sabe, ele ficou bravo não pelo choro do seu filho mas por ter, ele mesmo, sentido vontade de chorar
– mas não chorou de vergonha…

RUBEM ALVES

Nenhum comentário:

Postar um comentário