sexta-feira, 30 de julho de 2010

EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA OU MELHOR NA CIDADANIA

Mais do mesmo....





Rubem Alves 



Me dá grande alegria estar com vocês. Eu quero começar fazendo um pedido bem simples. 
Todo mundo que está com caderno e caneta para tomar nota, guarde a caneta e guarde os cadernos.
 Eu vou explicar a vocês por que. 
Eu já tomei muita nota de conferências e nunca consultei as minhas notas e sei que vocês também não vão consultar as notas de vocês e, na verdade, tomar nota prejudica, não é?
 Eu tenho impressão que essa questão de tomar nota é uma espécie de tique nervoso que assola os professores.

 Eles têm a obrigação de tomar nota para dizer que estão levando a sério, mas isso é não levar a sério, por que a gente, quando está envolvido numa conversa afetuosa, é até indelicadeza tomar nota, não é?
 Eu brinco sempre: não se toma nota quando se está fazendo amor. 
E toda a experiência de conversa, na realidade, é uma experiência de fazer amor. 
Um dos educadores que eu mais amo é o Roland Barthes.
 Roland Barthes era um homem de uma delicadeza... todos os estudantes junto com o Roland Barthes se sentiam inteligentes porque ele tinha a capacidade de transformar qualquer coisa que o aluno falasse numa coisa bonita, ele tinha capacidade de extrair a beleza das coisas que os alunos falavam. 
E ele tem um texto chamado “A Aula” – é uma aula inaugural que ele deu, quando ele estava sendo inaugurado como professor de semiologia no Collège de France. 
E, ao final do seu texto, ele já estava se sentindo velho...



Deixa eu só fazer uma observação psicanalítica sobre os celulares. Sabe que psicanalista é um ser perverso, que fica dando interpretação para todas as coisas, não é? 
Diz que havia uma querela entre Freud e um discípulo dele chamado Ferenczi, porque Freud fumava um charuto e então o Ferenczi ficava fazendo interpretações fálicas do charuto que o Freud tinha na boca. Mania de psicanalista. 
Eu fiquei, então, pensando sobre o sentido psicanalítico dos telefones celulares e a interpretação que eu tive foi a seguinte: quando eu era menino, a diversão da gente era ir à matinê de domingo, assistir bang-bang. 
E a coisa que a gente mais desejava era ter um revolvão e sair para a rua com o revólver na cintura assustando todo mundo e dando tiro. Era a fantasia infantil da gente. 
Claro que a gente nunca teve revólver nem saiu dando tiro, nunca realizamos então esse sonho infantil. Mas agora, graças aos telefones celulares, os homens saem com seus coldres e os seus revólveres. 
Então eles chegam no restaurante e – pum! – põem o revólver na mesa, por que pode ser que, a qualquer momento, sejam chamados, é aquela idéia de alguma coisa urgente, eu sou super, super-herói, eu tenho de agir, eu tenho de agir imediatamente, eu tenho de estar em contato com o mundo, eu sou muito importante, muito importante – de modo que eu não posso estar nem um segundo longe do contato com o mundo. Aprenda uma coisa: nós não temos a menor importância. 
O mundo vai continuar do mesmo jeito, sabe? 
Então, guardem os celulares para serem um pouquinho mais humildes, para poderem estar mais presentes, porque uma pessoa com celular ligado nunca está presente, ela está sempre à espera de uma chamada. Isso é ruim, não é?

Bom, eu estava falando sobre o Roland Barthes, e ele estava se sentindo velho, mas ele era bem mais moço do que eu, devia ter, eu acho, uns 55 anos. 
E ao final da aula, ele disse uma coisa muito interessante: que a vida de um professor se divide em três fases. (Na verdade, ele falou vida de um professor por modéstia, era a vida dele que se dividia em três fases.) Na primeira fase, ele disse, a gente ensina o que sabe. 
E é verdade, a gente ensina o que sabe, a gente ensina a criança a dar nó no sapato, a andar de bicicleta, a somar, dividir, a escrever, a gente ensina as coisas que sabe. 
Esse “ensinar as coisas que sabe” é um ato de transmitir as receitas de como viver que a gente aprendeu. Parte dos nossos saberes são receitas, como receita culinária do livro da Dona Benta.


Então ele diz: mas a gente vive um pouco mais e começa a ensinar as coisas que a gente não sabe.
 Aí as pessoas perguntam: mas como é que a gente pode ensinar aquilo que a gente não sabe?
 Imagine que a minha filha me pergunte: pai, onde é que fica a Rua Sampainho? 
Sampainho é uma rua lá em Campinas. Então eu digo a ela: não sei onde fica a Rua Sampainho, mas na lista telefônica tem uma série de mapas, você procura o nome da rua, na lista dos endereços, e lá tem indicação do mapa e você vai achar.


Eu não sei onde é a Rua Sampainho mas, apesar de não saber, ensinei minha filha a achar a Rua Sampainho. Essa é uma das coisas mais lindas sobre a vida de um professor. 
Não é aquele professor que sabe o programa, isso é banal. 
Os programas estão em livros, os professores que sabem o programa vão desaparecer: eles serão substituídos por disquetes, programas e livros. 
Mas ensinar a encontrar é a coisa mais importante: isso tem o nome de “fazer pesquisa”... é isso que a gente faz, não é?
 Quando a gente está ensinando a fazer pesquisa, está ensinando a coisa que a gente mesmo não sabe. 
O orientador da pesquisa é aquele que não sabe nada, quem sabe é o aluno, o aluno vai lá, visita a coisa, vem e conta para o professor e o professor aprende. 
Na situação de pesquisa, o orientador se torna aluno do aluno que faz a pesquisa.


Então ele diz o seguinte: chegou agora, finalmente, o momento supremo da minha vida, eu me entrego à maior de todas as forças da vida viva. 
Eu me entrego ao poder do esquecimento, procuro esquecer, desaprender tudo o que eu aprendi. 
Vejam que coisa curiosa, dizer que ele, professor, de semiologia, estava se dedicando a desaprender tudo. Parece o contrário do ideal de aprendizagem, de educação, de que a gente vai cada vez saber mais.
 Ele está dizendo que queria saber menos, saber menos.

terça-feira, 27 de julho de 2010

LIVRO QUE FAZ CHORAR

Hoje mais uma vez os textos de Rubem Alves me tocaram a alma. 
Todos nós um dia tivemos curiosidade por algo e na maior parte dos casos essa curiosidade foi podada em nossa infância, tornando-nos conformistas e executores de ordens. É muito provável que você ainda saiba de cor a tabuada que lhe foi ensinada (treinada). 
Atualmente nossas crianças não são mais forçadas a decorar conteúdos, no entanto instituiu-se um vazio, nada foi feito pra garantir uma melhor maneira de ensinar e aprender. Se estes professores não são capazes de ensinar e reaprender o mais básico de nossas profissões, o que dirá se tornarem capazes de ensinar a compaixão! Só damos o que temos!
"Como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha." (Paulo Freire)
Pois é meu estimado Rubem Alves, o que estão fazendo com nossas crianças! Lhes tiraram o direito de sonhar, o direito de aprender, o direito de viver!

Segue abaixo o texto de inspiração...


Um texto não interpretado permanece vivo para sempre

Uma livreira me contou.
Um pai foi à sua livraria e comprou o livro O patinho que não aprendeu a voar, para seu filho. No dia seguinte, voltou muito bravo.
“Meu filho chorou ao final do livro. Ainda chora quando se lembra do patinho que não aprendeu a voar.
Isso é livro que se dê a uma criança?”

Eu compreendo.
Ele quer que seu filho só tenha alegrias.
Ele quer que os livros que seu filho lê sejam engraçados e façam rir.
As crianças não deveriam ler livros que fazem chorar.

Mas tristeza não é coisa ruim.
A poesia brota da tristeza.
Alberto Caeiro escreveu: “Mas eu fico triste como um pôr de sol/Para a nossa imaginação/Quando esfria no fundo da planície/E se sente a noite entrada/Como uma borboleta pela janela/Mas minha tristeza é sossego/Porque é natural e justa/E é o que deve estar na alma…”
Escrevi muitas estórias alegres e que fazem rir.
Mas as que mais amo são aquelas que fazem chorar.

Por que é que o menininho chorou ao ler a estória do patinho que não aprendeu a voar?
Porque sentiu aquilo que minha neta sentiu.
Ela falou, em meio às lágrimas:
“Vovô, eu não consigo ver uma pessoa sofrendo sem sofrer.
Quando vejo uma pessoa sofrendo o meu coração fica junto ao coração dela…”
Ela e o menininho sentiram compaixão.
Seus corações ficaram junto ao coração de alguém ou de algum bichinho que estava sofrendo.
Sofreram um sofrimento que não era seu.
Como ensinar a compaixão?
De que vale conhecimento sem compaixão?
Somente o conhecimento com compaixão cria a bondade.
 E uma sociedade em que não existe a bondade não é digna de que vivamos nela.
Como a nossa, em que a bondade foi espremida nos cantos e as ruas se encheram de medo.

Gandhi relata que a experiência que mudou o seu coração foi a leitura de um livro. Ele era ainda adolescente.
O livro o comoveu tanto que ele queria ser como o herói, nobre e generoso.
Esse sentimento o acompanhou pelo resto da vida.
Seu coração ficou junto ao coração do herói. E não importava que o herói nunca tivesse existido, que fosse apenas uma ficção literária.
Pois é isso que a literatura faz: se desprega da vida real para dar-lhe um sentido.

Livros engraçados são bons. O riso tem a função de mostrar que o rei está nu.

Mas não conheço nenhum caso de uma pessoa que tenha sido transformada por um livro engraçado.
O riso provoca crítica, mas não provoca compaixão.
Pensei então que essa poderia ser uma das maneiras de ensinar compaixão: lendo para o aluno ouvir.
Mas para que as estórias façam os seus milagres é preciso que o ouvinte seja possuído pelas palavras e levado ao sabor da voz de quem lê a estória.

Fiquei então pensando que seria melhor que gastássemos menos tempo com gramática e análise sintática, e mais tempo com a leitura.
É na leitura que se aprende a língua. Leitura sem testes de compreensão, sem interpretações, o que é que o autor queria dizer etc.
Pura emoção.
Um texto não interpretado permanece vivo para sempre, porque permanece como um enigma que nos comove todas as vezes que o lemos.
Mas um texto interpretado é um texto esgotado do seu mistério, esquartejado sobre a mesa de anatomia da linguagem.

Gostaria de conversar com o pai do menino que chorou ao ler O patinho que não aprendeu a voar.
O menino entendeu.
Sentiu compaixão.
Mas o pai não entendeu.
Não chorou.
Ou, quem sabe, ele ficou bravo não pelo choro do seu filho mas por ter, ele mesmo, sentido vontade de chorar
– mas não chorou de vergonha…

RUBEM ALVES
Nossos Sonhos


" O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos."
( Rubem Alves )

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A TODOS...

A todos trato muito bem

sou cordial, educada, quase sensata,

mas nada me dá mais prazer

do que ser persona non grata

expulsa do paraiso

uma mulher sem juízo, que não se comove

com nada

cruel e refinada

que não merece ir pro céu, uma vilã de novela

mas bela, e até mesmo culta

estranha, com tantos amigos

e amada, bem vestida e respeitada

aqui entre nós

melhor que ser boazinha é não poder ser imitada.

Martha Medeiros

P.S: Para quem quiser conferir outros maravilhosos textos da Martha Medeiros segue o site onde encontrei este ( http://frasesreunidas.blogspot.com/2006/10/martha-medeiros.html )

sábado, 10 de julho de 2010

Muito.

O que ela quer é falar de amor. Fazer cafuné, comprar presente, reservar hotel pra viagem, olhar estrela sem ter o que dizer. Quer tomar vinho e olhar nos olhos. Ela quer poder soprar o que mora dentro, o que não cabe, que voa inocente e suicida. Ela quer o que não tem nome. Quer rir sem saber de quê, passar horas sem notar, quer o silêncio e a falação. Ela quer bobagem. Quer o que não serve pra nada. Quer o desejo, que é menos comportado que a vontade. Ela quer o imprevisto, a surpresa, o coração disparado, o medo de ser bom. Quer música, barulho de e-mail na caixa, telefone tocando. Ela tem muito e quer mais. Quer sempre. Quer se cobrir de eternidade, quer o oxigênio do risco pra ficar sempre menina. Ela quer tremer as pernas, beijo no ponto de ônibus e a milésima primeira vez. Quer cor e som, lembrança de ontem, sorriso no canto da boca. Ela quer dar bandeira. Quer a alegria besta de quem não tem juízo. O que ela quer é tão simples. Só que ela não é desse mundo
 
*O blog Amor e Ponto é um desses blogs que nos faz sentir a emoção de toda vida em algumas linhas. A algum tempo venho namorando este texto para publicá-lo aqui, pois é do tipo de escrita que nos traz a vontade de ler e reler incansavelmente, desta vez não resisti.
 
Degustem também outros maravilhosos textos no blog da autora

http://amoreponto.blogspot.com/search?updated-max=2010-03-30T00%3A12%3A00-03%3A00&max-results=7

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas ... permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sózinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.



Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ... Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ... Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar ... experimente me amar!


Martha Medeiros